April 23, 2008
Clark Never Dark
Clark “Mumbles” Terry, meu solista favorito
Uma das coisas que décadas de amor pelo jazz me ensinaram é que alguns dos momentos mais bonitos que a forma oferece vêm definitivamente dos coadjuvantes –os caras que por azar, modéstia, bad timing, baixo apelo comercial ou qualquer um dos cinco milhões de outros motivos jamais se tornaram líderes sólidos, nomes instantaneamente reconhecíveis (na medida em que isso se aplica ao jazz, claro –se o mano sair na rua perguntando o que é sonny rollins, 93% das pessoas provavelmente vão dizer que é uma marca de biscoito). Nas duas bandas de jazz de que mais gosto, pr’exemplo, muitos dos solistas são sujeitos dessa catigoria –Booker Ervin, John Handy, Jimmy Knepper, Horace Parlan, Jaki Byard, na banda de Mingus; Blue Mitchell, Junior Cook*, Hank Mobley, no quinteto de Horace Silver. E tem muito mais gente solando brilhantemente sem levar as comendas –Charles Rouse no quarteto de Monk, Harry Carney na orquestra de Ellington. E Clark Terry, everywhere.
Como Mingus, Terry tem a misteriosa habilidade de formar uma ponte entre as eras e estilos da música –mas ao contrário do baixista-compositor-turrão, Terry muitas vezes o faz nos 30, 40 ou 90 segundos de um solo, e ocasionalmente em palco alheio (um bom exemplo disso é o solo dele em uma versão ao vivo de “April in Paris” gravada por Joe Williams back in the early 60s). De todos os solos retro-atuais de Terry, porém, o que eu mais gosto está em “The Happy Horns of Clark Terry”, que ele gravou em 1964 para a Impulse!, com Walter Perkins na bateria, Milt Hinton no baixo, o honky que depois virou marromenos roqueiro Roger Kellaway no piano, Phil Woods no alto e Ben Webster no tenor.
A canção é “Do Nothin’ Till You Hear From Me”, de Ellington, e começou a vida como “Concerto for Cootie”, um instrumental composto para o lendário trompetista Cootie Williams. Terry segue o solo delicado de Webster com uma passagem de flugelhorn que evoca Williams e Louis Armstrong, mistura de melancolia pelo pé na bunda inevitável e protesto veemente de amor, lealdade, fidelidade, todas essas coisas que a gente lembra que é preciso jurar quase sempre quando não adianta mais fazê-lo. A canção taí em cima, cortesia do MP3Tube.net; o solo de Terry começa aos 1:50 (e a parte mais arrepiante vem aos 2:50, logo antes de Webster voltar com um daqueles obligatos inesquecíveis dele.) Se alguém um dia solar melhor, dôo meu fígo pra ciência.
* Cook também era um dos caras mais engraçados do mundo, como sabe qualquer um que tenha assistido a um dos shows em que ele decidia imitar o, er, profeta Elijah Muhammad, líder da Nação do Islã.
Posted by noronha at 11:05 AM
Comments
Comendador: Eu até homenageei o Tavares Silva no nome do blog.
QuincasB: Pois é. Aquela divisão de leads entre o Terry e o Cat Anderson tocando as partes agudas era way cool.
Monk: Com o seu pseudônimo, era de esperar o bom gosto. (E eu parafraseei o título desse disco que você menciona, e que também me agrada muito, no nome do post).
Posted by: McNasty at April 27, 2008 10:06 PM
Pior que o Jazz tem muitos desses, como o Joe Henderson, que ficou famoso já beeem velho. Um de meus CD´s favoritos é justamente um do Clark Terry: "Clark After Dark".
Posted by: Moziel T.Monk at April 27, 2008 07:22 PM
a 1ª vez q ouvi up & down, o trumpete lá na ponta, camisa onze da seleção do duke, foi mesmo de rachar o céu e zoar trovão
Posted by: QuincasB at April 26, 2008 07:45 AM
Uncle Filthy, a casa nova está uma beleza -e esse post, especialmente bom (embora eu seja suspeito pra opinar, já que fã do Clark Terry e dessa turma que tocava com Mingus e Horácio Silva).
Abração.
Posted by: Ruy at April 23, 2008 12:53 PM
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