July 15, 2008
VOLP...
(Este blog vai hibernar por tempo indeterminado. Aproveitem o trivial variado e a cuisine supimpa dos colegas de portal clicando aí em cima. Behave, kids.)
Posted by noronha at 02:56 PM | shut up and deal (2) | TrackBack (0)
Blade
“A mind all logic is like a knife all blade”
Sharper
Than the eye could see t
he cut unseen
As narrow as it’s deep
The blood within
Won’t seep
Steel
Won’t keep
Still
Won’t
Keep
(Still)
Posted by noronha at 01:15 AM | shut up and deal (1) | TrackBack (0)
July 12, 2008
Perp Walks
“The jury, passing on the prisoner's life, may in the sworn twelve have a thief or two guiltier than him they try”
Eu não sei se Daniel Dantas é culpado de outra coisa a não ser riqueza dita excessiva, e das conseqüentes tentativas de manipulação das otoridad para preservar ou ampliar essa fortuna que isso envolve não só no Brasil como em qualquer outro país. Se for culpado de crimes, eba! Um picareta (ou um grupinho deles) foi mais ou menos preso em um país em que não faltam picaretas. Mas ainda que as otoridad neguem que tenham deliberadamente transformado a coisa em espetáculo, bão, na prática é evidente que transformaram, com as habituais conseqüências infelizes: para a maioria dos observadores, que um sujeito vá preso significa automaticamente que ele seja culpado. (Dei uma bizoiada nos fóruns de opinião que discutem o caso e havia uma pluralidade de mensagens lastimando o fato de que “a polícia prende e a Justiça solta”, como se a detenção do sujeito resolvesse tudo -processo, julgamento, sentença? Nhé: pura burocracia.)
Nos Estados Unidos, a prática é conhecida como “perp walk”: as autoridades dão um jeito de avisar à imprensa que um sujeito renomado vai ser detido, ou que ele será transportado do Ponto A ao Ponto B, passando pelo lugar público e altamente fotografável X, no dia tal, hora tal. Em geral essas pequenas cerimônias envolvem algemar o sujeito, ou em casos mais extremos fazê-lo usar uniforme de presidiário e grilhões também nos pés. É um jeito de a polícia mostrar serviço (ainda que, nos EUA como no Brasil, a maioria absoluta desses casos não resulte em condenação) e, caso o detento seja um sujeito rico ou poderoso, de mostrar que ele está recebendo tratamento exatamente igual ao de qualquer outro, er, criminoso. Mas a verdade é que não está –o fato mesmo de que as autoridades tenham decidido convocar a imprensa, direta ou indiretamente, faz com que o tratamento seja diferente. Além disso, se um sujeito é empresário ou executivo, um perp walk pode ter repercussões para a carreira do cara, o valor das ações de sua empresa, contratos que ela possa estar negociando –e tudo isso muito antes que ele possa ser considerado culpado de qualquer coisa. (Um tribunal de recursos dos EUA decidiu em 2000 que perp walks encenados para a mídia eram ilegais, mas em 2003 autorizou a prática “se vinculada a necessidades judiciais legítimas”: ou seja, continua a ser questão de interpretação, e as otoridad aproveitam.)
A prevalência de perp walks não quer dizer que a polícia esteja enfim funcionando ou que, er, todos são iguais perante a lei. Quer dizer apenas que, em era de cinismo, cultura da inveja e excesso de mídia, os spin doctors que orientam as otoridad descobriram que mais ou menos 90% do público reage à imagem de um poderoso algemado com schadenfreude - “see how the mighty have fallen!”-, e muito pouca gente contempla a cena e suspira um “there but for the Grace of God...” Se a lei dispõe que mano é inocente até prova em contrário, por que algemar um detento que não tenha antecedentes de violência e não tenha resistido à prisão? Por que transformar a coisa em espetáculo? E se o que está em questão é o princípio da igualdade perante a lei, quem disse que a resposta correta é a igualdade na vergonha pública? Melhor que todo mundo, ladrão de galinha ou empresário suspeito de corrupção, tenha direito à mesma discrição e ao mesmo sigilo. Já que as autoridades que têm um detento em custódia assumem a responsabilidade por proteger sua integridade física, deveriam fazer o mesmo quanto à privacidade, o direito a um julgamento justo e a proteção contra humilhações. (Até porque, com autoridades como as brasileiras e as americanas desses últimos anos, não é nada improvável que sejam elas um dia a usar algemas.)
Posted by noronha at 01:40 PM | shut up and deal (2) | TrackBack (0)
July 04, 2008
Three very strange things...
I’ve not quite learned about women:
Even when she plans on being fashionably late, you better pick her up on time.
Expensive lingerie comes off faster.
She can always forgive what you did, but never who you are.
Posted by noronha at 11:07 AM | shut up and deal (4) | TrackBack (0)
July 03, 2008
Terapia de casais
The first 50 years are the hardest.
Entre as coisas slightly trashy que não fiz mas admito me causam inexplicável fascinação, terapia de casais vem logo abaixo de blind date. Eu nunca fiz análise, mas não considero que seja necessariamente picaretagem (ao menos no sentido de que a proporção de analistas picaretas não me parece superior à de médicos, adevogados ou consultores financeiros picaretas). Consigo até imaginar as vantagens da prática–que uma amiga outro dia definiu como “um jeito de me ajudar a me traduzir para idioma que eu entenda”. No mínimo, já que egotrip é a forma de turismo predileta dos últimos 50 anos, não me parece absurdo pagar pelos serviços de um bom guia de viagem.
Mas terapia de casais soa mais uh oh. Se os clichês e as cenas de humor que a gente lê ou vê sobre a cousa procedem, é apavorante a ponto de ser engraçado. Mas imagino que esses exageros cômicos não reflitam o que realmente acontece no processo, e duvido que pessoas sensatas se submetessem ao treco por mais de uma sessão caso ele fosse tão cretino quanto a cultura pop o pinta. Ou seja, acredito que talvez haja alguma coisa de válido ou útil em terapia de casal conduzida por gente séria. Mas mesmo assim tenho um pobrema filosófico com a cousa.
Se o terapeuta está lá em certa medida para servir como mediador entre Mr. Self-Righteous e Mrs. Holier-than-Thou, eu duvido um pouco que o processo possa funcionar, porque mediação depende de um campo neutro ao qual as duas partes estejam se referindo. Por exemplo, quando duas empresas estão brigando quanto a um contrato e recorrem a um mediador qualquer, o mediador tem o contrato como referência; se o qüiproquó envolve a Justiça, a lei é o referencial. Mas qual é o termo neutro de referência entre os dois membros de um casal? O contrato que existe entre eles, para além do aspecto legal do contrato de casamento em si, não é regido por um estatuto claro a que o mediador possa se referir. Amor, casamento, relacionamentos afetivos são feitos de um emaranhado de pressupostos, entendimentos tácitos, compromissos formais e informais, usos e costumes, cegueiras estratégicas. Como é que um mediador, por mais competente que seja, pode adjudicar alguma coisa com base nisso?
Resta a possibilidade, então, de que o terapeuta não seja mediador, mas sim uma espécie de cheerleader da compreensão mútua. Pode ser que isso tenha valor para alguns casais, mas eu duvido um pouco que adulto realmente consiga levar a sério um processo que inevitavelmente vai descambar ou em troca de acusações mútuas na qual o terapeuta serve marromenos de paredão de squash, ou em uma sucessão de expressões pias e hipócritas de vontade de mudar -marromenos como adolescentes em encontro de jovens. A sensação que tenho, sem nunca ter passado pelo processo, é a de que terapia de casais talvez seja menos um esforço para resolver o que há de errado no casamento do que um carnê de desculpa para a separação inevitável –“bom, Maria Alice [ou João Alfredo], como você está vendo, fiz tudo que pude”.
(Mas essa bobáj toda na verdade me ocorreu porque outro dia fiquei tentando imaginar o que é que um casal que acaba de passar por uma sessão de terapia conjugal poderia conversar no carro, a caminho de casa. E não consegui imaginar nada além de silêncio ligeiramente ressentido ou uma eclosão da gritaria que os dois talvez tivessem contido no consultório para não causar escândalo. Até que percebi que o único assunto seguro de conversa numa situação como essa seria zombar do ou da terapeuta. E talvez seja isso que uma terapia bem sucedida proporciona: um alvo comum para a zombaria combinada em que as pessoas apaixonadas costumam se envolver contra o resto da humanidade. Detonar o terapeuta em uníssono talvez propicie uma nostálgica viagem cúmplice ao passado, e vai ver que é porque se dispõem a servir de alvo que esses mano têm a coragem de fazer coisas como traçar os contornos de uma caixa invisível no ar com a ponta dos dedos e dizer que "neste espaço você pode dizer tudo que pensa em completa segurança" -desde que pague em dia os duzentão ou trezentão por hora.)
Posted by noronha at 10:14 AM | shut up and deal (1) | TrackBack (0)
July 02, 2008
Come Fly With Me: Grumman F5F Skyrocket
“Ô, Fudírso, quedê o nariz desse avião, mano?”
O Grumman F5F Skyrocket voou pela primeira vez no dia 1° de abril de 1940 –o que faz perfeito sentido dada a aparente implausibilidade aerodinâmica do poverello. Nóis aqui na McNasty Corp samos tudos equal opportunity haters, e portanto não seria possível insultar a França por um deslize aeronáutico sem mencionar essa pérola da engenharia ianque.
O Grumman XF5F Skyrocket: “eu tenho a régua”, diz a asa.
O protótipo do Skyrocket até que era rápido (616 km/h), mas os motores esquentavam mais do que Kombi 1973 subindo a serra. Quando todos os probleminhas técnicos foram resolvidos, 1942 havia chegado e aviões bem melhores já estavam em produção. O protótipo foi testado até 1944 e depois passou a ser usado como peso de papel no campo de testes da marinha americana em Patuxent River.
Falcões Negros e o F5F: pilotando essa tralha, melhor sair no soco
O Skyrocket foi o primeiro avião dos Falcões Negros, um esquadrão de clichês étnicos criado –por Chuck Cuidera e Bob Powell- na safra 1941 dos quadrinhos patrióticos americanos (a mesma do Capitão América). Os Falcões Negros são pilotos oriundos de países europeus ocupados pelos nazistas que, de uma base secreta em uma ilha e pilotando o avião mais feio do mundo, combatem o fragélo das ditaduras. (Na segunda capa, no canto inferior esquerdo, destaque para Chop-Chop, o cozinheiro chinês que usa a machadinha de carne para ajudar os bwanas brancos e altos a nocautear vilões variegados.) As tramas dos Falcões Negros eram sumamente idiotas (submarinos voadores, pr’exemplo), eles estavam sempre uns dois quilômetros abaixo do racismo mais tosco e a versão modernizada da história, nos anos 90, enfim revelou que o nome do audaz líder conhecido como Blackhawk era na verdade Janos Prohaska –quite unfortunate para leitor brasileiro. (E é craro que Blackhawk sempre foi um dos meus gibis preferidos.)
Posted by noronha at 10:31 AM | shut up and deal (1) | TrackBack (0)
July 01, 2008
Meu pobrema com Stephen Hawking
“It is not clear that intelligence has any long-term survival value”.
Vou começar ressalvando que não tenho nada contra Stephen-Hawking-a-pessoa (a idéia inicial desse post, aliás, era comemorar os 20 anos de “A Brief History of Time”, que saiu em 1988, vendeu 10 milhões de cópias em todo o mundo e, reza a lenda, é o best seller menos lido de todos os tempos). Hawking é evidentemente um sujeito de imensa capacidade intelectual que conseguiu realizar uma carreira brilhante apesar de uma doença devastadora, e o fato de que qualquer resfriado já me desanima profundamente de cumprir meus deveres basta para que eu respeite muito o sujeito. Quer dizer, não pretendo proceder aqui a nenhum debunking do, er, mito Stephen Hawking, até porque me faltam competência e conhecimento para debater as contribuições dele ao avanço da ciência.
Mas o “Stephen Hawking” sobre o qual a gente costuma ler não é Stephen Hawking, e sim uma mistura de monstrengo simpático e caricatura que parece criado sob encomenda para um mau roteiro –o gênio da ciência em cadeira de rodas e falando por sintetizador de voz, que persiste em seu trabalho apesar de todos os percalços porque acredita na salvação da humanidade. Só falta colocar o cara em uma nave com tripulação multiétnica e multinacional que sai ao espaço para evitar a destruição da Terra por um cometa ou meteoro marvado. At the risk of sounding rude, pelo menos parte da fama que torna “Stephen Hawking” sinônimo do, er, milagre da ciência aos olhos da rafaméia deriva do encanto perene da humanidade pela freakitude. Um sujeito que fizesse exatamente a mesma contribuição científica que ele e fosse parecido com o meu tio Evilásio seria tão ignorado por nós e pela mídia quanto os outros 10 mil cosmologistas. Na era do ET, é permissível sentir fascínio por qualquer personagem essencialmente porque ele é (visto como) freak –as long as he is a nice freak.
Hawking não é bobo e aproveita esse fascínio um tanto mórbido para promover um monte de causas meritórias (e dar cacetada no governo Blair pela incompetência monstro na gestão da pesquisa científica). Mas temo que a contaminação de Hawking-o-cientista (cujas teorias deveriam ser debatidas com exatamente o mesmo respeito -ou falta de- conferido às de qualquer sujeito que não sofra de ALS), por “Hawking”, o mistura-de-Spock-com-Yoda-on-wheels, resulte essencialmente em desconsiderar o seu trabalho. As comparações com Einstein, que o precedeu como cientista louco bonzinho nos anais da cultura pop, e com Isaac Newton, que 340 anos atrás ocupava a mesma cátedra da qual Hawking hoje é titular em Cambridge, são mais um tributo cretino ao embuste da, er, superação do que avaliação realista de seu possível gênio (e outro dos traços respeitáveis de Hawking é que, ao menos em seus trabalhos de vulgarização científica, ele não alardeie nem demais nem de menos sua contribuição pessoal para a ciência). O esforço meio patético, meio calhorda da mídia (ou será da gente?) para agigantar o doentinho na verdade faz com que a doença pareça maior do que ele: uma tremenda sacanagem para com pessoas de qualquer tamanho.
